O
esvaziamento da política nas últimas décadas, isto é, a sua transformação plena
na gestão económica do possível e a anulação de qualquer projecto
emancipatório de comum teve, desde logo, uma consequência: aquilo a que
poderíamos chamar o «retorno do reprimido» (para tomar de empréstimo
um conceito conhecido da psicanálise).
Aquilo
que é consignado ao passado pelo movimento desterritorializante do
capitalismo global volta a aparecer como o «reprimido». As tradições locais, as
línguas e dialectos, as ruínas e os centros históricos, as aldeias-museus,
adquiriram a forma de um comércio potente nas novas economias de criação de
valor, mas também a forma de uma redenção face aos efeitos neoliberais das
transformações sociais e económicas do território e da vida. Quanto mais avança
a máquina uniformizadora da globalização mais crescem os discursos de patrimonialização,
como espécie de não-lugar onde se resolvem, apenas aparentemente, todas
as contradições do presente. Por isso mesmo, esse pequeno objecto que dá
pelo nome de souvenir é, hoje, o
verdadeiro emblema do nosso tempo: ao dar ao passado a forma que este nunca
teve, ele permite ocultar a verdadeira forma do presente.
Numa política
sem projecto nem comum, o passado volta sempre já não como «farsa» ou como
«tragédia», mas como o «reprimido». Mas aquilo que retorna (à consciência),
como esclarece a psicanálise, vem sempre de maneira deformada ou distorcida
(sonhos, lapsos, actos falhados). A forma paradoxal dessa espécie ou desse
umbral de conhecimento é que aquilo que nos é dado a saber é apenas que nos
esquecemos de algo que já não sabemos o que é, isto é, que há algo que
permanentemente nos escapa.
O retorno
generalizado a que assistimos, nos últimos anos, aos regionalismos, aos nacionalismos
e aos estados-nação, não deverá ser visto apenas como um movimento de oposição
à globalização ou um efeito directo de uma xenofobia e de uma intolerância em
crescendo. Na verdade, o seu princípio de funcionamento parece ser o mesmo do
«retorno do reprimido». Eles são a recordação daquilo que nos
esquecemos mas já não sabemos o que é e ao qual só podemos ter acesso
através desses pequenos sonhos, lapsos e actos falhados, que nos sobressaltam
durante o dia ou pela noite. Nacionalismos e regionalismos talvez não
sejam mais que as recordações imprecisas e fugidias daquilo que, afinal,
permanece reprimido: isto é, a política. A política como hipótese de projecto
revolucionário, emancipatório e de comum para além das formas do capitalismo
dominante. Mas se, por um lado, eles não são meros efeitos de
superfície no movimento universal da globalização, ganhando um valor de contestação
à economia política do neoliberalismo. Por outro lado, eles não são mais que os
substitutos, os fetiches que a «consciência
repressora» permite dar a essa energia e pulsão do descontentamento.
Aquilo que
permanece «reprimido», como pura impossibilidade é a política enquanto
projecto colectivo de resistência e de emancipação (não foi isso que apesar de
tudo se vislumbrou em tantos momentos do referendo na Catalunha a 1 de
Outubro?). Mas aquilo que está aí, na forma desses pequenos sonhos, lapsos
e actos falhados, não é mais que o jogo da «consciência repressora», isto é, do
poder, sobre nós. Dito de outro modo, o encadeamento infinito dos pequenos
dispositivos que ele, o poder, mobiliza e diverte para nos entreter e
capturar para que a gestão competente do possível possa, enfim, continuar. Não é o
capitalismo, antes de mais, uma força de extração de todas as energias
revolucionárias aí onde elas estão sempre a aparecer?
P.s.
Talvez não seja assim tão estranho que
tudo isto se passe em Barcelona, uma cidade que esteve na linha da frente de um
processo de transposição de uma escala local para uma escala global (um
processo que se iniciou com a organização dos jogos olímpicos em 1992), o que
originou transformações (muitas delas abruptas) a nível económico, social e urbano.
Sendo o turismo e a sua indústria apenas mais um desses vectores, mas cujas
consequências têm vindo a ser expressas na sucessão de debates e manifestações
que assinalam um mal-estar generalizado dos seus habitantes relativamente ao
modelo económico e social que a cidade tomou.
Neste sentido, a afinidade entre
patrimonialização e nacionalismo talvez seja mais próxima do que aquilo que se
poderia pensar. Se a patrimonialização é, de facto, o ponto ideológico onde se
consumam todas as estratégias de salvação e redenção do presente face aos
efeitos da máquina global e neoliberal. Talvez o mesmo possa ser dito para os nacionalismos,
como o não-lugar onde se resolvem, apenas aparentemente, todas as contradições
do presente.
Numa época em que a economia e o poder
nunca foram tão globais e líquidos,
fugindo e dissolvendo-se entre fronteiras e offshores,
resta saber qual é o papel que cabe ao estado-nação e se não estaremos, afinal,
perante a sua própria patrimonialização: a museificação do estado-nação. Isto
é, a sua conversão plena num souvenir,
destituído de qualquer valor de uso a não ser esse de dar ao passado a forma que nunca teve, para assim ocultar a verdadeira forma do presente.
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Pedro Levi Bismarck
Editor do Jornal Punkto.
Ficha Técnica
Data de publicação: 07.10.2017